Projecto Outdoor / Lisboa 99

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Paulo Mendes

 

«A arte não é só talento mas sobretudo coragem»
Glauber Rocha

Em Abril de 1999 comemorou-se em Portugal os vinte e cinco anos da revolução que derrubou um regime ditatorial e fascista que fez lei durante quarenta e oito anos.

Nessa ocasião políticos e outros impostores vieram a público rejubilar e celebrar a importância do acontecimento sobre a cobertura conveniente da democracia instalada. A democracia deles, resultado de um processo revolucionário convenientemente travado dezoito meses depois da sua explosão, não havia lugar para a utopia, a ordem internacional, ainda no tempo da guerra-fria, tinha de ser restabelecida.

«Os mesmos expoentes do nacionalismo desorbitado, os seus profetas e os seus jovens saídos, glosam na adoração perpétua de si mesmos e dos seus fantasmas, a antiga e porventura inextinguível festa de um obscurantismo de iluminados, proprietários do enigma sábio. Este triunfalismo, análogo ao que nas revistas da chamada alta sociedade, assinala o regresso dos eternos senhores da nossa pátria pobre e sempre respeitadora, é a verdadeira rasura não só da mitologia utópica do 25 de Abril, mas até da nossa sociedade como sociedade democrática. A provocação, a arrogância de classe, a brutal inocência desse antigo mundo, agora gozando por si, ou nos seus descendentes ao deliciar quentes do "revanchismo" social, nada tem que invejar à da sociedade característica do Antigo Regime.» (Eduardo Lourenço, 1989).

Foi para fazer um balanço desta ressaca da revolução que um grupo de criadores de diversas disciplinas se reuniu no projecto Quartel / Arte, Trabalho, Revolução.

Na sequência deste projecto, para o qual elaborei um conjunto de trabalhos que interrogavam a memória da revolução e a sua concretização, tendo como mote comum a pergunta O 25 de Abril existiu?, apresentei a maquete para um outdoor, aqui reproduzido, para ser colocado numa zona central de Lisboa. Depois de analisada por responsáveis da Câmara Municipal de Lisboa, dirigida por uma coligação formada pelo partido do governo, Partido Socialista e pelo Partido Comunista, foi recusada por razões obviamente de inconveniência politica. Há factos que não devem ser questionados. Existiram. E os nossos actuais políticos são deles o resultado.

Em seguida apresentei uma segunda proposta que apresentava como imagem um graffiti fotografado nos subúrbios de Lisboa com o rosto de um negro acompanhado pela frase: «Deus tem uma única desculpa que é o facto de não existir.»

Este outdoor acabou por ser instalado na proximidade de uma igreja e o resultado da tolerância religiosa foi o apedrejamento e um pedido directo do padre local ao município para retirar o outdoor, pedido que foi aceite. Mais tarde foi recolocado noutro local apresentando apenas a imagem, estando o texto censurado com uma faixa preta.

Esta é a democracia deles. O resultado da memória de uma revolução evocada mas não concretizada.


Lisboa, Julho 1999

Texto escrito para publicação no jornal francês
PARPAINGS – ARCHITECTURE, ART, PAYSAGE,
Edições Jean-Michel Place, Paris, n.5 de Setembro de 1999.



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