Sabotagem

Paulo Mendes ---------------------english version
 
1. SABOTAGEM = Como acto voluntário na tentativa de destruição ou inutilização de instrumentos de trabalho; marcar uma posição forte contra uma série de princípios que ou não conseguiram impor-se ou foram defraudados ao longo da época do modernismo; posição niilista de desconstrução dos dogmas formalistas de Clement Greenberg e da abstracção modernista.
Sabotagem a um entendimento linear, às condições ideais de leitura; ao silêncio de consentimento opõe-se o ruído, sonoro e visual, da discussão, causando incómodo, perturbação (não há razão para falsos consensos); não há despojamento espacial, mas sim catalogação de formas, armazenamento de materiais numa galeria, como mostruário, mercadoria em stock (museu, coleccionismo, valor-troca).

2. ACTIVIDADE RECOLECTORA E DE SEDUÇÃO = Nas actuais sociedades mediáticas os elementos estruturais da linguagem plástica são outros, não interessa mais uma produção que se baseia nos dados formalistas, nos elementos estruturais da linguagem plástica original (ponto, linha, plano): estes elementos apenas farão sentido quando utilizados como citação irónica, paródia a formas «historicamente qualificadas», numa apropriação cínica, com a única finalidade de entrar num jogo de simulação, de aparências, eliminando qualquer possibilidade de um conteúdo genuíno e de autenticidade estética.
O espaço de consumo urbano do homem comum, deve agora coincidir com o espaço de pesquisa de materiais do artista contemporâneo; ao adoptar servir-se de elementos presentes na economia capitalista, o artista integra-se organicamente no funcionamento do sistema e faz a demonstração da exploração comercial da arte, usando os mesmos métodos de sedução do mercado de consumo.

3. INEXPRESSIONISMO E A DERROCADA DA AUTO-EXPRESSÃO = Através de um tipo de arte inexpressionista pretende-se expurgar o lado ambíguo e de lirismo com carácter individual e subjectivo que tornou a vigorar em certas áreas da produção artística dos anos 80; o «arrefecimento» de linguagens já no final da década, apressou a queda dessa «expressão individual» pelo menos temporariamente; o objectivo é reforçar o empenhamento social da arte, desvalorizando a ideia da «arte pela arte.»
O caminho a seguir pela actual produção artística deverá pois ser o de um «realismo mediático», um passo adiante, pela introdução de novos problemas, como a instabilidade do real, passando-se segundo Paul Virilio de uma estética da aparição em que uma coisa existe através de uma emergência e de uma fixação, para uma estética da desaparição, em que as coisas existem porque desaparecem no movimento, evolução pois em relação ao «realismo documental», designação que serviu para caracterizar as intervenções de Warhol.

 

O leque potencial de materiais a utilizar, é assim extensivo a toda uma sociedade consumista e telemediática, podendo-se aqui introduzir a ideia de arbitrariedade, no sentido globalizante, no sentido em que qualquer material/elemento tem à partida potencialidades que possibilitarão o seu uso, a sua apropriação; desses materiais a usar deverá igualmente ser retirada toda a possível carga poética, reforçando-se sim o aspecto da eficácia.

Pelo processo da citação/apropriação verifica-se a negação do original e uma nova utilização do ready-made, funcionando aqui como demonstração de uma determinada realidade social/mediática objectiva, pretendendo que dela o Homem tome consciência e aja no sentido da mudança.

No seguimento destas novas estratégias certos valores devem primar pela ausência, pelo menos no seu entendimento tradicional/académico: ausência do autor, de «estilo»; ausência de autenticidade/verdade; ausência de originalidade; ausência de expressão; ausência de emoções/gesto; ausência de elevação estética.

Com a derrocada da auto-expressão e com o esvaziar de significados fortemente metafísicos ou de busca do absoluto no relacionamento entre o objecto e o sujeito, o interesse está agora em todas as formas de «reprodução» mais do que «produção».

A arte deve pois agir como testemunha reflexiva, crítica, interventiva, em relação à realidade, funcionando no seu âmbito tecnológico e mediático.

Maio 1992


Texto escrito e policopiado para acompanhar a primeira exposição individual – SABOTAGEM – que decorreu na Galeria Zero entre 6 de Maio e 3 de Junho de 1992.O texto «SABOTAGEM» foi mais tarde publicado na monografia Paulo Mendes / the best of...Vogue, edição Mimesis, Porto, 2002

------------------------------------




SABOTAGE
Paulo Mendes

1. SABOTAGE = As a voluntary act in the attempt of destroying or rendering useless working tools; to take a firm stand against a series of principles which were either unable to impose themselves or were defrauded throughout the era of modernism; nihilist stance of deconstruction of the formalist dogmas of Clement Greenberg and of the modernist abstraction.
Sabotage to a linear perception, to the ideal conditions of interpretation; to the silence of consent, the noise of the argument, both sonorous and visual, is opposed, causing unease, disturbance (there is no reason for false consensus); there is no spatial despoilment, but the cataloguing of forms, storage of materials in a gallery, like a show-case, merchandise in stock (museum, collectionism, exchange-value).

2. ACTIVITY OF COLLECTING AND SEDUCTION = In the current media-orientated societies the structural elements of the visual language have changed, there is no longer concern for a production based on the formalist data, on the structural elements of the original visual language (point, line, plane): these elements will only make sense when used as ironic quotation, parody of «historically qualified» forms, in a cynical appropriation, with the sole purpose of entering a game of simulation, of appearances, eliminating any chance of a genuine content or aesthetic authenticity.
Ordinary man´s urban consumer space must now coincide with the contemporary artist´s material-experimenting space; in serving himself with elements present in the capitalist economy, the artist integrates himself organically into the functioning of the system and demonstrates the commercial exploitation of art, resorting to the very methods of seduction of the consumer market.

3. INEXPRESSIONISM AND THE DOWNFALL OF SELF-EXPRESSION = By way of an inexpressionist kind of art one intends to purge the ambiguous and lyrical side with a subjective and individual character which came into use again in certain areas of the artistic production of the 1980s; the «cooling off» of languages towards the end of the decade hastened the fall of that «individual expression», at least temporarily; the goal is to reinforce the social commitment of art, devaluing the idea of «art for art´s sake.»
The path to be followed by the current artistic production should then be one of «media-oriented realism», a step forward, for the introduction of new problems, such as the instability of the real. Passing, according to Paul Virilio, from an aesthetics of appearance in which something exists through an emergence and a fixation, to an aesthetics of disappearance, in which things exist because they disappear in the movement, an evolution therefore in relation to «documental realism», designation which served to characterise Warhol´s interventions.

 

The potential range of materials to be used is thus extensive to the whole of a telemedia-guided and consumer society, being possible here to introduce the idea of randomness, in a globalising sense, insomuch as any material / element has almost certainly potentialities which will enable its use, its appropriation; all possible poetic meaning should also be removed from those materials to be used, reinforcing instead the aspect of efficacy.

By way of the process of quotation/appropriation, the denial of the original and a new usage of the ready-made is verified, functioning here as demonstration of a particular social/media-orientated objective reality, intending Man to become aware of it and act towards change.

In the wake of these new strategies certain values should be conspicuous by their absence, at least in their traditional/academic meaning: absence of the author, of «style»; absence of authenticity/truth: absence of originality; absence of expression; absence of emotions/gesture; absence of aesthetic elevation.

With the downfall of self-expression and with the drainage of strongly metaphysical meanings or of the pursuit of the absolute in the relationship between the object and the subject, the interest now lies in all forms of «reproduction» more than «production.»

Art should therefore act as a reflexive, critical and interventive witness in relation to reality, functioning in its technological and media-orientated ambit.

May 1992

Photocopied text distributed at the first solo show – SABOTAGEM – which was held at Galeria Zero, between May 6 and June 3 of 1992.



Topo