Lotação Esgotada Subsídios para um diagnóstico da Cultura Portuguesa

Untitled Document Paulo Mendes

Como uma doente que deambula de médico em médico acumulando diagnósticos, mas sem encontrar fármacos para a cura, assim vai a cultura portuguesa.

1. A principal prioridade para o desenvolvimento e assimilação da cultura portuguesa é um investimento irreversível na educação. As escolas na sua maioria continuam a promover uma singela visita anual a um museu e quanto aos equipamentos científicos, desportivos e culturais vão funcionando de forma intermitente. Quanto aos pais, ainda gerações iletradas, talvez acompanhem os filhos num zapping televisivo ou lhes apresentem esses novos monumentos contemporâneos portugueses que são os estádios de futebol.
As novas gerações não merecem continuar atoladas no culto da igorância e da mediocridade; ou então este país anestesiado transforma-se definitivamente num viveiro de trabalhadores de serviços, cidadãos acríticos ao serviço da Europa civilizada, dirigidos e subservientes a discursos populistas de políticos conservadores e arrivistas.
Os entusiasmantes números apresentados acerca dos públicos dos eventos culturais são meros equívocos estatísticos para celebrarem o foguetório político de circunstância; os criadores necessitam sem dúvida de público, mas de preferência informado.
Sabe-se o grau de conhecimento estético e de cultura geral da nossa população, medidas estruturais consistentes são urgentes para se afirmarem novas dinâmicas de afirmação da identidade cultural portuguesa na Europa e no Mundo.

2. Apostando na educação numa perspectiva social e política de futuro não se pode castrar o presente.
A nossa história justifica uma contínua atenção à preservação do património, mas esta deve coincidir com um forte investimento na criação e experimentação contemporânea; se isso não acontecer preserva-se o passado e hipoteca-se o futuro, e o país continuará a definhar mergulhado nas suas memórias saudosistas.
O estado, o sector empresarial e a população têm de perceber quanto é importante o testemunho da cultura de um povo, e o investimento que para ela é preciso assegurar. Os criadores não devem ser tratados como pedintes, os subsídios atribuídos à criação artística não podem ser vistos como uma espécie de “esmola mínima garantida”. Os criadores estão a construir a memória presente de um povo, e por esse trabalho devem ser recompensados e respeitados.

3. Num país periférico e com graves lacunas educacionais cabe ao Estado desenvolver políticas de investimento público, incentivando também o tecido empresarial a nelas participar.
É necessário que a televisão pública cumpra o seu papel na formação de públicos, é necessário que os media e os seus jornalistas sejam mais competentes na sua função de informar e deixem de utilizar os meios de comunicaçaõ social para dar apenas voz aos “consensos convenientes” e reforçar a “posição dominante” de certos opinion makers ou fast thinkers televisivos.
É necessário que as instituições contrariem a estabilidade imobilista e invistam consequentemente nos criadores portugueses e na sua integração nos circuitos internacionais de afirmação.
Sem uma educação crítica a cultura viva de um povo morre.

Fevereiro, 2002

Texto publicado na revista NÚMERO n.12 março, abril 2002



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