O Arquivista

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Paulo Mendes

Ao correr do tempo, como nas pequenas telas diárias de On Kawara, alguns trabalhos vão pontuando a memória – das pessoas com que me fui cruzando, dos projectos em que fui trabalhando – como nas sequências fotográficas temporais e nas colectâneas de imagens e vídeos insólitos de Hans-Peter Feldmann. Esta colecção, se assim a designarmos, é uma soma de afectos, peças de um vocabulário com o qual vou escrevendo um texto maior, que constitui a totalidade do meu trabalho criativo nos seus vários departamentos.

O conjunto de peças que foram sendo reunidas, umas oferecidas, outras trocadas e ainda outras compradas, sinaliza também um registo explícito de opções estéticas que obviamente me ligam geracionalmente a um outro modo de pensar a arte contemporânea que veio a caracterizar a última década da arte portuguesa.
Os trabalhos aqui apresentados coligem alguns desses príncipios e relacionam-se entre si por temáticas que têm acompanhado o meu próprio trabalho, como a espectacularização voyeurista e fetichista da sexualidade. O exibicionismo espectacular dos espelhos de Fernando Brito que cita Guy Debord: «O espectáculo, como a sociedade moderna, está ao mesmo tempo unido e dividido. Como esta, ele edifica a sua unidade sobre o dilaceramento.», co-existe com a paródia kitsch sobre o discurso amoroso em «Sit on my soul» de António Olaio através da sua Pin-Up retratada e apropriada á moda de Picabia de velhas e ingénuas imagens nostálgicas, em aparente contradição com a ambígua preversidade da fotografia de Susana Mendes Silva – «Prevenção da Vertigem» – sinto a amputação que ali acontece, vem-me à memória Buñuel, ao fundo começo a ouvir os passos de Tristana a ecoar no corredor...«Love Me Tender», a cadeira desenhada pelo arquitecto Didier Fiuza Faustino, remete-nos para uma relação orgânica de contaminação entre o corpo e o objecto, como uma prótese-fetiche que prolonga o desejo. Depois do (des)cobrimento da pele e da sua exibição voyeurista resta-nos o prazer da dor – o corte.

Este é um Atlas, tal como o de Gerhard Richter, das minhas memórias, afectivas e visuais, que continua a ser um work in progress.

Março 2003

Texto escrito para publicação no jornal Público a propósito da exposição ARTE DOS ARTISTAS, em que vários artistas plásticos mostraram obras das suas colecções particulares. Paulo Mendes participou como coleccionador apresentando obras de António Olaio, Fernando Brito, Didier F. Faustino e Susana Mendes Silva. A exposição decorreu na Culturgest / Edifício Sede da Caixa Geral de Depósitos em Lisboa de 16.4 a 31.8 de 2003.



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