Red Power (FTR)

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Paulo Mendes


1. RED POWER (FTR) foi uma instalação apresentada em 2006 e que integrava um conjunto de três exposições do projecto PLAYTIME RESEARCH COMPLEX. Estas exposições individuais prolongavam uma série de trabalhos desenvolvidos em SCHIZOLIFE SYSTEMS uma exposição anterior apresentada em Coimbra durante 2004.
Os trabalhos apresentados nestas exposições utilizavam meios diversos para além da instalação, como o vídeo, o desenho ou a fotografia.
RED POWER (FTR) foi apresentado no espaço independente PêssegopráSemana na cidade do Porto. A produção desta obra exigiu a colaboração de um conjunto de especialistas nas diversas fases de desenvolvimento do trabalho que se prolongou por aproximadamente por dois meses.
Depois da sua concepção passou-se à fase de produção, iniciada com a recolha de documentação sobre este modelo específico da Ferrari, um Testarossa de 1984, eram necessárias fotografias que mostrassem em pormenor o carro e necessitávamos também das medidas exactas do mesmo. Depois de feito o modelo em 3D foi uma fábrica especializada que fez o corte em material moldável do modelo em escala real. Seguiu-se o trabalho em atelier executado por um técnico que aperfeiçoou o modelo e preparou o futuro modo de instalação do trabalho no espaço expositivo.
As secções do carro viajaram então até à sala de exposições, um primeiro andar de um prédio antigo com uma simples porta de acesso e cuja sala tinha apenas mais 10 cm de cumprimento que o Ferrari. O modelo do Ferrari foi então montado e devidamente protegido por uma capa original adquirida à Ferrari italiana.

2. A instalação RED POWER (FTR) apresenta nas suas múltiplas leituras um conjunto de questões que se relacionam com realidades sócio-politicas contemporâneas. Um objecto fetiche do consumismo e do design encontra-se enclausurado numa sala diminuta e degradada mantendo em suspenso toda a sua potência enquanto máquina, a sua eficácia mecânica e tecnológica torna-se simplesmente inútil e impotente.
Esta pode ser uma das imagens para um Portugal que se confronta com as realidades económicas díspares dentro de uma Europa que evolui as várias velocidades, uma imagem da ostentação material precária de uma classe dominante provinciana e inculta que encontra num objecto como o Ferrari Testarossa a sua consagração social.
As tensões sociais que se perpetuam num sistema de violência permanente consequência da desestruturação económica são metaforicamente associadas a uma iconografia de poder/potência física e sexual.

3. Desde a primeira apresentação pública do meu trabalho, no inicio dos anos 90, que os trabalhos de instalação estiveram presentes.
A ocupação / apropriação de um espaço a sua transformação para criar ao visitante uma experiência diferenciada, mais activa e menos passiva, criando uma situação única apenas possível na envolvente daquela obra específica são aspectos que considero importantes para a elaboração e recepção destes projectos de exposição.
O trabalho site-specific é uma outra situação em que o artista tem de se confrontar com as particularidades de um espaço, estas acabam por ser muitas vezes estimulantes para criar trabalhos temporários onde o aspecto da desmaterialização do objecto artístico ganha forma promovendo contextos mais experimentais (exemplo: Mike Kelley, Paul McCarthy ou Jason Rhoades).
Noutras conjunturas o trabalho artístico funciona também como um conjunto de informações colocadas ao dispor do visitante, ou seja a obra não funciona como um objecto individualizado mas num conjunto de cruzamentos entre vários elementos propostos num espaço, resultando este tipo de montagem numa instalação (exemplo: Ilya Kabakov, Douglas Gordon, Gabriel Orozco, Robert Gober ou Marcel Broodthaers).
A contaminação entre vários elementos num espaço expositivo é visível também em projectos com uma componente de base mais documental e associados muitas vezes a questões sócio-politicas (exemplo: Group Material, Thomas Hirschhorn, Muntadas ou Hans Haacke).
A questão da instalação ganhou novo protagonismo na década de 90 com uma nova geração de criadores que rompe com as apresentações de disciplinas mais académicas e que se aproxima das correntes internacionais mais pertinentes e produtivas, recuperando algo da década de 70 em Portugal, como se pode constatar na mítica exposição Alternativa Zero (1977) e cujo espírito que a animou tinha estado ausente durante a materialista década de 80.
Actualmente muita da arte produzida, nacional e internacional, trabalha com a instalação, esse é apenas mais um modo dos criadores pensarem o desenvolvimento do seu trabalho de modo a continuarem permanentemente a questionar a operatividade da arte contemporânea.


Texto escrito para publicação no JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias (n. 940 de 11 Outubro de 2006) a propósito de um dossier intitulado «O mundo da instalação» onde eram apresentados vários textos e depoimentos de artistas e críticos sobre este tema da arte contemporânea.



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